Pastoral é caminho e escuta: mas quem acolhe quem acolhe o peregrino?


Márcio Silva Alves Pereira
Guia de Turismo especializado em turismo religioso, turismo cultural e especialista em atrativos naturais.
Sócio fundador da AGCTUR, grande incentivador da profissão.

Teve início o Encontro Nacional da Pastoral do Turismo (Pastur), acolhido neste ano pela Diocese de Lorena. Em meio à rica programação, tive a graça de participar da Santa Missa de abertura e escutar com atenção a homilia do Padre Aloísio na celebração transmitida ao vivo, pároco da Matriz de Santo Antônio em Guaratinguetá e alguém que sempre olhou com sincero carinho e apoio para a nossa vocação.
A certa altura de sua reflexão, o padre lançou uma pergunta no ar: o que é uma pastoral e por que precisamos dela?
Essa interrogação ecoa com força no coração de quem vive como guia de turismo, do acolhimento e da fé, no maior centro de peregrinações do Brasil. E desperta em nós, uma reflexão honesta — desprovida de desrespeito, mas firmemente ancorada na realidade que enfrentamos.
Uma Igreja em saída ao encontro do caminhante
Padre Aloísio nos recordou um fundamento essencial: não existe evangelização sem comunicação e escuta. Pastorais só existem porque existem necessidades concretas. Se cada pessoa que viaja já tivesse experimentado um encontro pleno com o Cristo, a Pastur sequer precisaria existir.
O apóstolo Paulo não foi chamado dentro de quatro paredes; foi surpreendido e alcançado por Jesus em plena estrada, no calor da viagem rumo a Damasco.
A vocação da Pastoral do Turismo reside precisamente aí: ser uma Igreja em saída, que não espera de braços cruzados que o peregrino bata à sua porta. Pelo contrário, vai ao seu encontro no meio do caminho. É uma presença que acolhe sem julgar vestes, cobranças ou falhas, enxergando em cada viajante uma história viva feita de alegrias, dores, dúvidas e sede de Deus.
Essa postura traduz com clareza o que a própria Igreja define como acompanhamento pastoral: caminhar lado a lado, unindo verdade e misericórdia, para ajudar cada filho a reconhecer sua realidade diante de Deus e dar passos reais de crescimento.
Mas quem cuida de quem está na linha de frente?
Contudo, ao contemplar essa missão tão nobre, é inevitável sentir um aperto no peito ao olhar para o dia a dia da nossa categoria em Aparecida e região.
São quase 20 anos de estrada e dedicação ao acolhimento de fiéis no maior polo de fé católica do país, enfrentando barreiras dentro do próprio espaço eclesial. Fomos pioneiros na estruturação desse acolhimento aos romeiros — construído a duras penas e ombro a ombro com nomes inesquecíveis da nossa história, como a querida Zenilda Cunha. Hoje, no entanto, frequentemente nos vemos relegados a um segundo plano.
Compreendemos que os grandes centros e santuários tenham suas equipes próprias de monitores. A questão aqui não é uma crítica vazia, mas um desabafo maduro: rotular genericamente os guias locais como desqualificados — sem abrir portas para formá-los e integrá-los à vida pastoral — é nivelar tudo por baixo. É misturar joio e trigo e ignorar o impacto direto na vida de dezenas de famílias e no turismo de toda a região.
Muitos ainda têm a impressão de que atuamos apenas por razões financeiras. O sustento é legítimo e necessário, mas a esmagadora maioria dos profissionais faz desse ofício uma verdadeira missão de vida e amor a fé. Dói perceber que, muitas vezes, somos lembrados apenas quando há interesse de que levemos grupos a determinados locais; já em momentos de reflexão, integração e formações, nos vemos tratados apenas como mais um número ou meros pagantes de taxas de inscrição. O fato não é pagar ou fazer parte, mas sim, precisamos ser ouvidos… pois através de nossas falas tem centenas de peregrinos, histórias, lágrimas e fé que absorvemos de cada viajante.
Uma provocação fraterna para o futuro da Pastur
Graças a Deus, ainda encontramos sacerdotes e agentes sensíveis que nos olham nos olhos e nos acolhem como parte viva da Igreja. Pastores que entendem que o guia de turismo evangeliza, mas também precisa ser evangelizado; que ensina a história da fé, mas anseia por aprender e caminhar em comunhão.
Se a essência do acompanhamento pastoral é escutar, discernir e caminhar junto, deixamos aqui uma pergunta fraterna:
Que o Encontro Nacional da Pastur não se limite a discutir o turismo em teorias, mas seja capaz de estender a mão àqueles que, faça chuva ou faça sol, são o primeiro rosto, a voz e o sorriso acolhedor de quem pisa em solo sagrado, seja esse solo Aparecida, Guaratinguetá, Lorena, Roma ou na própria Terra Santa, e por mais que o aperto no coração continue, aconteça o que acontecer, continuaremos sendo Igreja e exercendo o nosso ofício com amor e dedicação.
Deixe sua Avaliação
Comentários (0)
Ainda não há comentários aprovados.
